segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

História dos sentimentos - Lya Luft

"Os sentimentos humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o TEDIO bocejou três vezes porque a INDECISÃO não chegava a conclusão nenhuma e a DESCONFIANÇA estava tomando conta, a LOUCURA propôs que brincassem de esconde-esconde. A CURIOSIDADE quis saber todos os detalhes do jogo, e a INTRIGA começou a cochicar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.O ENTUSIASMO saltou de contentamento e convenceu a DÚVIDA e a APATIA, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A VERDADE achou que isso de esconder não estava com nada, a ARROGÂNCIA fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o MEDO preferiu não se arriscar:"Ah, gente, vamos deixar tudo como está", e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.A primeira a se esconder foi a PREGUIÇA, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O OTIMISMO escondeu-se no arco-íris, e a INVEJA se ocultou junto a HIPOCRISIA, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.A GENEROSIDADE quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a CULPA ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a SENSUALIDADE se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o EGOÍSMO achou um lugar perfeito onde não cabia ninguem mais.A MENTIRA disse para a INOCÊNCIA que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a PAIXÃO meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o ESQUECIMENTO já nem sabia o que estavam fazendo ali.Depois de contar até 99 a LOUCURA começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o AMOR, com os olhos furados pelos espinhos.A LOUCURA o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o AMOR é cego e a LOUCURA o acompanha.Juntos fazem a vida valer a pena - mas isso não é coisa para os medrosos nem para os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação."

Impressionante como as coisas se encaixam!

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